
por Damián Sánchez.
Podemos ler a teoria da democracia partidária como uma abordagem que contrapõe as diversas práticas entre passado e presente. Utilizo o verbo ler procurando salientar que se trata de uma possibilidade de interpretação, um possível fechamento de significados para o termo utilizado. Como toda significação depende de uma dada articulação contingencial de sentidos (Laclau, 1996); outras significações estão sempre nesse jogo, podendo se constituir como possibilidades de rompimento dessa dada fixação proposta, sempre provisória. Como discute Ball (1994), apoiando-se na teoria literária, não se lê qualquer coisa em qualquer texto, mas também não existe uma única possível interpretação nos múltiplos textos produzidos.
Se entendemos o POLÍTICO como uma dimensão prática do ordenamento da coexistência dos contextos e este ordenamento torna-se um ato de criação, então a POLÍTICA consiste nas lutas por ocupar esse lugar. E essas lutas são sempre lutas por hegemonia.
Política é uma possibilidade de inventar o futuro, para cada um de nós, para os outros e para o mundo. Fazer política, nessa perspectiva, é admitir que os futuros possíveis são também contingentes. É o fato do futuro ser possível e não obrigatório que nos faculta a possibilidade de inventá-lo.
Por outras palavras, a política é o conjunto de decisões adotadas em um terreno indecidível, ou seja, um terreno no qual o poder é constitutivo. Por isso mesmo, um consenso sem conflitos e sem fissuras é tão prejudicial a uma democracia quanto a inexistência de qualquer possibilidade de consenso, de acordos sabidamente contingentes. Dessa forma, pressupor a diferença e a possibilidade de conflito com os adversários passa por admiti-los como parte do processo de significação. Assim, tanto há necessidade de reconhecer o Outro e suas diferenças, como também a impossibilidade de tornar esse Outro um igual, no sentido de anular suas diferenças.
Conviver com a incerteza dos dirigentes partidários e, às vezes medíocres, instáveis, seguidores da via do pensamento único e da terceira via de conciliação e "vamos todos dar as mãos", sabendo que esse todos é restritivo, e ainda conviver com a incerteza do jogo político dos que temporariamente detêm a hegemonia das rédeas partidárias parece ser o que nos resta. Mas, ao mesmo tempo, pode ser o que nos fascina. E é fascinante porque faz parte do jogo democrático. Ou, nas palavras de Laclau, democracia requer unidade, mas essa unidade só pode ser pensada por intermédio da diferença.
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