
Os ditadores, geralmente, escondem-se atrás das hierarquias e das dificuldades. Usam as hierarquias para tudo, só se pode falar quando autorizado e conforme sua posição e proximidade da sombra do todo poderoso. Todos os pedidos devem ser encaminhados a uma autoridade competente, esperado os prazos, seguindo o caminho legal, geralmente, definidos a partir dos interesses ditatoriais. Em nome das dificuldades, eles proclamam a unidade e o esforço coletivo, acusam os críticos de pessimismo e conspiração. Eles correm do debate, do contraditório e da discussão como os corredores da São Silvestre que desejam conquistar o primeiro lugar e acionam as mais diversas estratégias para ritualizar e formalizar a vida política, visando conter e neutralizar os conflitos e as posições divergentes.
A onipotência e a onisciência são obsessões dos ditadores. Para realizá-las criam polícias especiais, incentivam delação e a cooptação, festejam a tortura física e moral e intensificam espionagem. Eles sentem um prazer paranoico pela vigilância e pelo patrulhamento (principalmente, o ideológico), nada pode fugir aos seus olhos. São mestres na promoção da suspeição generalizada e da boataria como estratégia de controle. Nada pode acontecer sem ser supervisionado e observado, nada pode se desenrolar sem autorização e verificação. Tudo deve estar sobre seu controle e poder. Em nome dessa utopia, matam, perseguem e torturam milhares de pessoas.
Publicamente, os ditadores são sorridentes, cativantes e austeros, mas não escondem a vaidade e a prepotência, apresentam-se como demiurgos da sociedade, como senhores do destino do povo (acreditam que são os melhores interpretes “do desejo do povo”), imaginam-se como seres realizadores, que superam as adversidades e as dificuldades, que sabem o caminho correto a ser trilhado. Como atribuem-se uma inteligência mais elevada, acreditam que o destino e a segurança da nação e do Estado estão nas suas mãos. Por isso, eles não medem esforços para se livrarem dos opositores e inimigos, revelando o lado horripilante, grotesco, impiedoso, forte e audaz das suas ações políticas, patrocinando a eliminação física e moral daqueles, assim como de discursos de zombaria/ridicularização e desmoralização de suas críticas e propostas.
Essas práticas, quase sempre, são celebradas como demonstração de fidelidade e de proteção, de compromisso e altruísmo dos ditadores com sua nação, libertando-a das forças do caos e da desordem. Como salvadores e combatentes da nação, defendem a inoculação das forças ocultas que insistem em propagar a infelicidade e a discórdia. Nas comemorações, discursos e propagandas eles insistem na valorização enlouquecida da obediência, da disciplina, da paciência e da motivação (adesão ao regime).
Os ditadores cultivam uma relação simbiótica com as instituições que lideram, não conseguem se verem separados delas, confundem-se com elas. Todas as críticas, contestações e desafios são lidos não como dirigidos a sua gestão ou administração, mas a instituição que estão liderando, assim transformam-nas, imediatamente, em crimes contra a instituição (crimes de lesa aos ditadores), ou melhor, traição. Para perdurarem no poder envolvem-se num jogo de culto à própria imagem e de busca de solidariedade, promovendo estratégias clientelista e favoritismo de aliados, assim como de táticas populistas de conquista do apoio popular. E quando essas estratégias esgotam-se e o sentimento de indignação dissemina-se, logo acionam a repressão, mas vendo as contestações e reivindicações ampliarem, apostam nas divisões, acirrando as rivalidades entre grupos sociais ou na política do terror, difundo o medo entre os cidadãos. Tudo isso para reafirmarem seus poderes.
A vida dos ditadores não é um paraíso, como muitos imaginam. Ela é a luta diária pela manutenção do poder e pela conquista da obediência seja através do medo, da sedução e da cooptação. Todos os dias eles precisam proclamar e defender sua existência e justificar seus mecanismos e estratégias políticas, afirmando o triunfo sobre as negatividades, contrariedades e divergências. Há o medo cotidiano, concreto e imaginado, de perder o poder. Na linguagem dos ditadores, liberdade é aceitar a opção já dada por eles; autonomia, é ser tutelado e dirigido por suas ordens; participação, é realizar o que já foi programado e decidido por suas equipes; compromisso, é defender acriticamente as suas decisões e interesses. Essa semântica está fortemente associada ao mundo de mistério e segredo, ou seja, de ausência de publicidade e transparência que marcam a tomada de decisões nas administrações ditatoriais, pois estas preferem a ante-sala do poder (os gabinetes fechados) do que o espaço público, pois não haveria razões para a discussão pública, já que os fühers são o suficiente iluminados e assessorados para saberem das necessidades dos liderados, desses eles só desejam aplausos, deferência e bajulação.
Essas práticas ditatoriais não se reservam ao poder estatal, mas perpassam toda vida social, ganhando expressão e sentido a partir das relações de poder que a configura. Pode-se enfrentar ou ignorar cotidianamente governos autoritários, tiranos e ditatoriais em pleno mundo democrático, o que não faz o Brasil tão superior e diferente, como insiste a imprensa brasileira, daqueles países que protestam hoje no Oriente Médio e Norte África, já que aqui é possível, também, “calar à voz e neutralizar” os opositores utilizando instrumentos democráticos.
* Historiador e professor de história no Campus Nova Andradina/IFMS.
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