quinta-feira, 29 de julho de 2010

Decidi não mais servir e ... (Damián Sánchez)

Em tempos de escuridão somos obrigados a repensar nossa maneira de agir e procurar táticas e estratégias de enfrentamento que nos poupem e ao mesmo tempo nos aliviem das investidas do Império. Ele aparece como uma espécie de espaço liso pelo qual deslizam subjetividades sem resistência ou conflitos substanciais. Império é uma nova forma de economia e de mando caracterizada pela ausência de fronteiras, sendo que o poder por ele exercido não tem limites e abrange a totalidade do espaço.
Assim, a reflexão de La Boétie (1530-1563), contemporâneo de Montaigne, sobre a condição humana e a liberdade parece-nos do mais apropriado aos nossos dias. Vejamos abaixo:

"Aquele que vos domina tanto só tem dois olhos, só tem duas mãos, só tem um corpo, e não tem outra coisa que o que tem o menor homem do grande e infinito número de vossas cidades, senão a vantagem que lhe dais para destruir-vos.

De onde tirou tantos olhos com os quais os espia, se não os colocais a serviço dele? Como tem tantas mãos para golpear-vos, se não as toma de vós? Os pés com que espezinha vossas cidades, de onde lhe vêm se não dos vossos? Como ele tem algum poder sobre vós, se não por vós?

Como ousaria atacar-vos se não estivesse conivente convosco? Que poderia fazer-vos se não fôsseis receptadores do ladrão que vos pilha, cúmplices do assassino que vos mata, e traidores de vós mesmos? (...) Ficais mais fracos para torná-lo mais forte e rígido mantendo mais curta a rédea.

(...) Decidi não mais servir e sereis livres; não pretendo que o empurreis ou sacudais, somente não mais o sustentai, e o vereis como um grande colosso, de quem substraiu-se a base, desmanchar-se com seu próprio peso e rebentar-se."