segunda-feira, 17 de maio de 2010

Criar Expectativas (Damián S. Sánchez)

O propósito do jesuíta Baltasar Gracián quando escreveu em 1647 seu livro intitulado "A arte da prudência", segundo o comentário do sociólogo italiano Domenico De Masi, foi o de oferecer aos homens do seu tempo um guia para ajudá-los a se desemaranhar nos labirintos das intrigas, das dúvidas e das maledicências cotidianas.

Assim, um dos excertos por ele chamado de Criar expectativas, diz o seguinte:

"O sucesso inesperado provoca admiração. Jogar abertamente não agrada nem é útil. Não se mostrar imediatamente gera curiosidade, sobretudo em relação aos assuntos importantes, que criam expectativa geral. O mistério, por seu próprio segredo, provoca veneração. Mesmo ao revelar-se, deve-se fugir da franqueza total. Não exponha seus pensamentos íntimos a todos. É no silêncio recatado que a sensatez se refugia. Quando uma decisão se torna pública, nunca é devidamente estimada. Se for objeto de crítica, a má sorte virá em dobro. É melhor imitar o procedimento divino para manter os homens atentos e vigilantes."

Essas reflexões de Gracián podem nos ajudar a não tomar decisões precipitadas quando se trata de apoiarmos o candidato A ou B. A pouco menos de um mês para a realização da eleição em Jaguaré e depois de toda uma bem orquestrada encenação para tirar o candidato C da disputa, eis que os dois paladines que ficaram procuram o PT para oferecer uma borracha, apagar o passado e oferecer uma secretaria municipal, num dos casos, e duas secretarias no outro caso, como se de um leilão se tratasse e o PT tivesse que decidir qual lance seria o mais vantajoso e oportuno para ele.

A História é a mestra que nos traz os fatos para podermos estar fazendo uma (re)leitura dos mesmos, mas essa (re)leitura depende muito dos olhos que estão enxergando. A história é construida e, por isso mesmo, resultado de escolhas que tem tudo a ver com o pensamento ou, como preferem alguns, com as ideologias. Por isso é necessário ficarmos atentos para, nesse cipoal todo, fazermos algumas perguntas a nós mesmos e responder da melhor forma.

Quem é que esqueceu a presença de José Carlos Gratz no palanque de determinado candidato a deputado que hoje concorre ao cargo de prefeito? E quem quer fechar os olhos à presença de um viceprefeito que já foi cassado pela justiça eleitoral e que sempre se alinhou com o grupo do prefeito recentemente desfenestrado pela mesma justiça eleitoral? Quem é que irá financiar ambas as campanhas? Todos os dois querem fervorosamente cuidar de Jaguaré. Até ficamos sensibilizados porque estariam querendo fazer o que nunca realizaram quando ocuparam o cargo agora pleiteado. Tanto cuidado e tanta atenção é o reconhecimento tácito do marasmo em que se encontra nosso município. Que bom que alguém vai cuidar de nós, pensam alguns, como se de favores ou tutorias se tratasse. Que ótimo se alguém vai fazer para nós o que os outros nunca fizeram e quando tiveram o poder nas mãos simplesmente voltaram as costas para o povo e administraram em benefício próprio e dos seus. Aliás, essa parece ser uma marca determinante dos (des)governos municipais em geral. E nesse emaranhado todo qual é a marca do PT? O que nos caracteriza? Sem dúvida que não são as "qualidades" dos candidatos em disputa.